Crónicas & Opinião
A “Fonte Santa” de Mouquim I
Segundo os relatos, tudo começou com um deslizamento de terras numa extensão de cerca de cem metros. Uma macieira foi arrastada quase vinte metros do local original e, no ponto onde antes se encontrava, brotou inesperadamente uma nascente de água.

Estimados leitores,
quem acompanha as minhas investigações históricas sabe que tenho uma atenção particular a um período muito específico do nosso passado: a Primeira República. Um tempo curto em cronologia, mas avassalador em acontecimentos, rutura e mudança. Talvez por isso continue a exercer um fascínio difícil de igualar noutros momentos da história portuguesa.
Ao revisitar algumas obras sobre esse período em particular as que abordam os movimentos clericais e anticlericais é impossível não reparar no clima de conflitualidade quase permanente entre dois blocos que se enfrentavam sem pudor: o poder religioso e o poder político. Os seus apoiantes cruzavam argumentos nos parlamentos, inflamavam páginas de jornais e, não raras vezes, levavam a contenda para a rua. Era uma época em que a política se vivia com paixão, muitas vezes com mais fervor do que racionalidade.
Foi numa dessas leituras que deparei com uma referência curiosa: a existência de uma “Fonte Santa” na freguesia de Mouquim, surgida nos finais de 1912, numa propriedade conhecida como Quinta da Costa. Uma quinta antiga, sabe-se que existe pelo menos desde o século XII e que, serenamente, caminha para o seu primeiro milénio.
Segundo os relatos, tudo começou com um deslizamento de terras numa extensão de cerca de cem metros. Uma macieira foi arrastada quase vinte metros do local original e, no ponto onde antes se encontrava, brotou inesperadamente uma nascente de água. Como se o cenário já não fosse suficientemente simbólico, durante os trabalhos de reparação do terreno surgiu ainda um pequeno crucifixo de cobre. O espanto estava lançado.
Rapidamente, o local começou a receber uma multidão crescente. Pessoas vinham de perto e de longe para recolher aquela água e presenciar o fenómeno. Numa tentativa de impor alguma ordem, o crucifixo acabaria por ser transferido para a capela da quinta. A revista Ilustração Portuguesa procurava então uma explicação racional: atendendo à antiguidade da propriedade e ao facto de ali terem sido sepultadas várias pessoas, incluindo clérigos, o crucifixo poderia pertencer a uma antiga sepultura.
Nada disso, porém, travou o entusiasmo coletivo. A quinta estava desabitada havia quase cinquenta anos, mas isso não impediu que se instalasse um clima de euforia, ou mesmo de histeria coletiva. A nascente passou a ser rapidamente designada como “santa”.
Multiplicavam-se os testemunhos de curas milagrosas: cegos, paralíticos, surdos, reumáticos, aleijados todos eles diziam ter encontrado alívio naquelas águas.
A afluência tornou-se massiva. Já não vinham apenas de Santo Tirso ou Famalicão, mas também de Felgueiras, Guimarães, Braga. Chegavam munidos de garrafões, cântaros e todo o tipo de recipientes para transportar a água milagrosa. E, como tantas vezes acontece nestes contextos, houve quem visse ali uma oportunidade de negócio: à entrada da quinta surgiram barracas improvisadas de comes e bebes, com destaque para um vinho fresco que, diziam, era excelente.
O proprietário da quinta, Abílio de Magalhães Brandão, era descrito como um homem culto, com estudos em folclore e arqueologia, talvez um dos poucos fatores que impediu que a situação descambasse numa crendice ainda maior. Ainda assim, o repórter da Ilustração Portuguesa não hesitava em afirmar que aquele espaço poderia transformar-se numa espécie de “Lourdes portuguesa”.
A intensidade do fenómeno foi tal que a história não cabe numa só crónica.
Fica, por isso, a promessa: voltaremos a esta Fonte Santa… numa segunda parte.
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