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Escrita com Norte | Qué Flô?

Quando Eça chegou à recepção do pavilhão, esta ainda estava fechada. Pouco depois apareceu Delfim. Nove horas mais tarde chegou Adel, um emigrante tunisino que dizia ser vendedor de flores. Faltavam ainda duas horas e meia para a abertura da recepção e já havia uma fila de três pessoas. Convencido de que aquilo poderia transformar-se […]

Jornal do Ave

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Quando Eça chegou à recepção do pavilhão, esta ainda estava fechada. Pouco depois apareceu Delfim. Nove horas mais tarde chegou Adel, um emigrante tunisino que dizia ser vendedor de flores. Faltavam ainda duas horas e meia para a abertura da recepção e já havia uma fila de três pessoas.

Convencido de que aquilo poderia transformar-se numa multidão, Delfim teve uma ideia brilhante.
— Como nos concertos dos U2, fazemos uma lista de chegadas!

A recepção abriu às 8h45, quarenta e cinco minutos depois da hora prevista. O responsável explicou que tivera de levar a mãe à feira. A primeira inscrição só ficou concluída às 15h30, porque os candidatos passaram o dia inteiro a discutir quem tinha sido o primeiro a chegar!

Terminadas as formalidades, a funcionária informou:

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— Os combates para o Campeonato Regional de Insultos Politicamente Correctos são amanhã à noite, depois do kick-boxing. Ou seja, sem hora marcada!

Fez uma pausa e acrescentou:

— Agora tenho de ir buscar a minha mãe à mercearia.

— Boa! — responderam os três candidatos.

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Na noite seguinte, às 22h30, os três eram os únicos concorrentes. Nos bastidores ouviam-se os últimos gritos dos combates de kick-boxing. Foi então que o delegado da prova procedeu à revista dos participantes.

A surpresa surgiu quando Delfim foi apanhado com cábulas, “És um boneco, dá-me palmadinhas no bum-bum…”

Considerado «doping verbal», foi imediatamente desclassificado.

A final ficava assim reduzida a Eça e Adel, o tunisino.

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Quando os combates terminaram, toda a gente abandonou o pavilhão. Restavam apenas um idoso que tentava levantar-se da cadeira e uma senhora cega que procurava o metro e tinha entrado no recinto por engano.

Nos corredores de acesso ao ringue, os dois finalistas aguardavam quando uma voz ecoou pela arena:

— Senhoras e senhores! Vai começar a grande final do Campeonato Regional de Insultos

Politicamente Correctos!

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Eça e Adel entreolharam-se.

— E eis o grande momento! Eça e Adel, o tunisino!

Os dois abraçaram-se.

— Somos nós, Adel!

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— Qué flô? — respondeu Adel.

Entraram na arena. As bancadas estavam vazias. O idoso tentava sair. A senhora cega continuava à espera de um metro que jamais chegaria.

O árbitro e apresentador era Franco Sintra.

— Senhores atletas, pede-se um combate limpo. Não digam bem de quem não gostam. Quanto às restantes regras… vós já sabeis.

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— Que regras? — perguntaram ambos.

— Não faço ideia.

Soou o sino.

No primeiro assalto, Eça tropeçou ao aproximar-se do centro do ringue. Adel aproveitou:

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— Qué flô?!

E, sem lhe dar tempo para recuperar:

— Qué flô? Qué flô? Qué flô? Qué flô?

O ataque era avassalador. O velhote virou costas ao combate.

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Quando o sino soou, a senhora cega julgou que o metro tinha chegado. Deu um passo em frente e caiu pelas escadas abaixo. Franco Sintra fez-lhe a contagem regulamentar e declarou-a desclassificada.

O segundo assalto começou.

— Ó excelente pessoa, a tua mãe é uma santa! — atacou Eça.

— Qué flô? — respondeu Adel.

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— Dás a camisa a um pobre! A tua irmã é boa para casar!

— Falta técnica! O Adel não tem irmã.

O combate prosseguiu.

— Devia sair-te o Euromilhões!

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— Qué flô?

O assalto terminou equilibrado.

No terceiro e derradeiro assalto, Eça surgiu imparável.

— Tens um coração de ouro! Tens a inocência de uma criança! És tão fofinho! Trocava a minha mãe pela tua! Merecias um prémio pela paz! Éééés liiiindo!

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A vitória parecia inevitável.

Foi então que o tunisino encontrou forças para um último ataque.

— QUÊÊÊÊ FLÔÔÔÔÔÔ?!

O golpe atingiu Eça em cheio.

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K.O.

Franco Sintra iniciou a contagem.

— Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez!

Adel era o novo campeão regional.

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Recebeu o cheque de 75 €, ouviu um breve «Parabéns» de Franco Sintra e, antes de sair, aproximou-se do adversário caído.

— Qué flô?

E foi-se embora.

Muito mais tarde, Eça recuperou os sentidos. O pavilhão estava vazio. O campeonato terminara. A glória partira.

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Levantou-se, sacudiu o pó e tomou a única decisão razoável para um derrotado digno, que constatava que o mundo já seguira caminho sem ele:

— Vou-me embora.

E foi.

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