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Crónicas & Opinião

Memórias e Histórias do Vale do Ave: A Escola Agrícola de Santo Tirso: passado, presente e interrogações

O ensino agrícola era encarado, sobretudo nos últimos anos da Monarquia e, de forma mais vincada, durante a Primeira República, como um instrumento de reeducação social.

Jornal do Ave

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Na leitura de uma das muitas notícias recentemente publicadas na edição online do Jornal do Ave, intitulada “Governo autoriza arrendamento por um ano da Escola Agrícola em Santo Tirso”, fui inevitavelmente remetido para algumas das pesquisas que realizei num passado recente, concretamente na Torre do Tombo, no Arquivo do Ministério da Agricultura. A consulta de diversos fundos documentais relacionados com o ensino agrícola levou-me, por mera curiosidade historiográfica, a procurar compreender a dimensão deste tipo de investimento num período particularmente conturbado da história nacional, o da Primeira República (1910–1926). Rapidamente se tornou evidente que existia, por parte dos agentes e decisores políticos da época, uma clara preocupação em financiar e estruturar este setor do ensino.

A produção historiográfica tem vindo a confirmar essa realidade: houve, de facto, uma intenção assumida de modernizar o ensino, introduzindo novas práticas pedagógicas, novos conteúdos programáticos e até novos docentes — estes últimos, aliás, bastante escassos no Portugal de então —, bem como um incentivo claro à profissionalização do ensino, rompendo com modelos excessivamente teóricos e pouco eficazes.

O ensino agrícola era encarado, sobretudo nos últimos anos da Monarquia e, de forma mais vincada, durante a Primeira República, como um instrumento de reeducação social. Pretendia-se oferecer uma alternativa a jovens considerados mais “irrequietos”, frequentemente em risco de delinquência ou abandono familiar, procurando simultaneamente responder a vários problemas estruturais: reduzir a delinquência juvenil, modernizar as práticas agrícolas e aumentar a rentabilidade económica de um setor absolutamente central para a economia nacional da época.

Foram vários os locais escolhidos, um pouco por todo o país, para a instalação deste tipo de equipamento educativo, com especial atenção à adaptação de antigas infraestruturas conventuais ou monásticas. Tal opção era compreensível, atendendo à dimensão desses edifícios, numa época em que o investimento público em equipamentos coletivos era escasso e dependente, muitas vezes, de vontades individuais ou de filantropia. Entre esses espaços surgiu, com naturalidade, o Mosteiro Conde de S. Bento.

Importa sublinhar que não estávamos perante uma simples escola de âmbito local. Tratava-se de uma instituição com uma ação pedagógica inovadora, que permitiu a criação das chamadas “escolas móveis”. Este modelo assentava num sistema em que os formadores circulavam pelas localidades envolventes, um ou mais dias por semana, consoante o número de formandos e o acolhimento das comunidades, levando consigo um ensino eminentemente prático. O objetivo era claro: transmitir conhecimentos diretamente no terreno, próximos das realidades locais, funcionando como um verdadeiro indutor de mudança de mentalidades. Um ensino excessivamente erudito estaria condenado ao fracasso numa sociedade maioritariamente analfabeta, pelo que a aposta na prática se assumia como condição essencial para o sucesso.
Estamos, assim, perante um empenhamento claro em romper com práticas agrícolas arcaicas, herdadas de um passado quase senhorial, e em preparar as comunidades para uma agricultura mais racional, produtiva e sustentável. O raio de ação da escola ultrapassava largamente a sua sede, formando e capacitando inúmeros elementos das freguesias vizinhas, contribuindo para uma maior rentabilidade agrícola e para um melhor entendimento das necessidades económicas e sociais do território.

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Mais de um século depois, de acordo com a notícia agora publicada, foi autorizado, por despacho em Diário da República, um contrato de arrendamento urbano, pelo prazo de um ano não renovável, entre a Irmandade e Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso e o Ministério da Educação, Ciência e Inovação. O documento fixa uma renda mensal de 25.600 euros, o que corresponde a um valor anual de 307.200 euros.

Numa conta simples, falamos de mais de 307 mil euros por ano, valor que, acumulado ao longo de poucos anos, rapidamente ultrapassa um milhão de euros. Um montante que, mantidos os valores atuais, poderia ser suficiente para dotar Santo Tirso — e mesmo a região envolvente — de uma escola agrícola com melhores condições, capaz de formar mais alunos e de oferecer quadros qualificados a um setor económico que se pretende cada vez mais competitivo, moderno e resiliente, num contexto de crescente pressão demográfica.

Se, mesmo com limitações evidentes, os resultados alcançados são já assinaláveis, é legítimo questionar o que poderia ser feito com mais e melhores condições. O falecido Conde de S. Bento limitou-se, afinal, a seguir os cânones da sua época, cedendo aquelas instalações com a condição expressa de ali ser concretizado um equipamento educativo ao serviço da comunidade.

Num momento em que os responsáveis políticos sublinham, com insistência, a necessidade de uma gestão rigorosa dos dinheiros públicos, talvez faça sentido pensar numa ação coletiva. Uma mobilização conjunta das autarquias vizinhas, em articulação com a edilidade local, poderia reforçar a atenção sobre esta instituição, num esforço que seria claramente mais eficaz do que iniciativas isoladas. Afinal, mais e melhor formação para os homens e mulheres de amanhã é sempre uma garantia de um futuro mais sólido e mais justo.

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Desde a sua génese, esta escola foi encarada pelos agentes políticos republicanos como uma peça fundamental do ensino agrícola, beneficiando de sucessivos reforços orçamentais num ritmo que não se verificava noutras escolas do país. Tal facto não só evidencia a crescente exigência financeira da instituição, como constitui um argumento claro para a comprovação da sua importância histórica, social e económica.

Talvez esteja na hora de recuperar esse espírito de visão estratégica que marcou o passado e de o adaptar aos desafios do presente. Investir no ensino agrícola não é apenas preservar um legado histórico; é, sobretudo, apostar no desenvolvimento sustentável do território, na valorização do conhecimento prático e na coesão social. Santo Tirso e a região do Vale do Ave têm aqui uma oportunidade que não deveria ser encarada como um custo, mas como um investimento coletivo no futuro.

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