Crónicas & Opinião
Memórias e Histórias do Vale do Ave: Solidariedade operária – a união faz a força
“Dei por mim a folhear alguns dos meus livros sobre a história do movimento operário e a perceber que sem sombra de dúvidas o espírito de operariado já esteve com melhores dias e fundamentalmente melhores práticas de apoio, ajuda e fundamentalmente de união.”

Após mais uma greve geral que parou o país, cada ator teve o cuidado de tentar divulgar, manipular, ou até mesmo sendo cru com as palavras enganar as pessoas relativamente ao impacto desse acontecimento que seguramente nas próximas décadas será um momento de estudo e também de escrutínio sobre as mudanças nas relações profissionais e até nas relações do Homem para com o seu semelhante.
O movimento operário viveu uma intensa discussão nestes últimos dias na imprensa e com alguma naturalidade dei por mim a folhear alguns dos meus livros sobre a história do movimento operário e a perceber que sem sombra de dúvidas o espírito de operariado já esteve com melhores dias e fundamentalmente melhores práticas de apoio, ajuda e fundamentalmente de união.
Quem estuda o movimento operário nos primórdios da nossa república, tem obrigatoriamente de estudar o que acontece no Vale do Ave, num movimento social, sem precedentes em que o comum cidadão que trabalhava numa das muitas fábricas têxteis rapidamente percebeu que a promessa concretizada em tempos de monarquia pelos republicanos iria fracassar.
Nesta região, era evidente que as fábricas estavam paradas, os apitos das buzinas não soavam, os operários ficavam à porta e as suas esposas iam tentando organizar a rede de apoio àqueles que se manifestavam por mais e melhores direitos.
O operário vivia de magros rendimentos, mais anoréticos ainda eram os rendimentos das mulheres e por vezes nos operários mais jovens os salários eram uma miragem, não era um direito, mas quase um dever moral de agradecimento não reclamar essa retribuição mensal porque estaria a aprender uma profissão, mesmo que gerasse riqueza em prol do patronato.
As lutas foram contínuas nesses meses e anos de República, colocaram enorme pressão nos agentes governativos, sobretudo no sul do país que rapidamente perderiam a esperança de ver a sua condição de vida, ao contrário do operário da nossa região que manteve sempre uma réstia de esperança até que a comida começou a faltar nas suas mesas em consequência da crise das subsistências.
A legislação foi incrível, o trabalho dos legisladores foi intenso, inúmeras leis saíram, direito à habitação, regulação do horário de trabalho, etc., mas eis que, tudo esbarrava na falta de força de lei, o que não era estranho atendendo que uma carta de Lisboa a Freixo de Espada à Cinta a título de exemplo em 1910 demorava mais de uma semana a chegar ao destino.
A própria regulamentação de trabalho é uma batalha longa, atendendo que o som das fábricas marcava o ritmo dos dias. O apito chamava ao trabalho ainda antes do nascer do sol e libertava os operários já de noite. Quando esse som faltava, não era por acaso, era sinal de greve e fundamentalmente de protesto, recordando que quem se conforma não recebe nada e arrisca-se a ver os outros a decidir por si.
Um movimento de rutura social que atingia famílias inteiras, que eram enormes, vários eram os casais que tinham dezenas de filho e a perda de rendimentos por um dia de trabalho, de um salário que já era dramático a sua chegada até ao final do mês, mais complexo se tornava quando não era concretizado na sua maioria, mas, eis que aqui entrava a solidariedade operária.
Não eram raras as subscrições de operários até de diferentes pontos do país, mesmo de localidades ou regiões longe da nação que recolhiam donativos para aqueles grevistas, conseguirem pelo menos alimentar a sua família, fundamentalmente as crianças.
Não menos raro era quando as greves duravam vários dias, semanas, ou até praticamente meses, não apenas greves de um dia, em que se fala de um segundo dia consecutivo e era quase escandaloso para o país, os filhos desses operários eram encaminhados para outros territórios e eram amparados por outros operários e até mesmo associações de classe.
Em formato de conclusão, estamos perante a certeza que no Vale do Ave, não foi apenas um espaço de produção industrial, mas também um território de resistência social, onde se construiu uma cultura operária que assentava na ideia mais simples, mas também poderosa, de que ninguém se salva sozinho. Cem anos depois, muita coisa mudou, mas urge recuperar estas memórias de solidariedade, de sacrífico e também de valentia em desafiar o sistema instalado para que fosse possível que os cidadãos tivessem mais dignidade…
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